
INTEGRAÇÃO SENSORIAL DE AYRES E ESTEREOTIPIAS
A Integração Sensorial de Ayres (ISA), quando aplicada por um terapeuta ocupacional qualificado, oferece uma abordagem profunda e respeitosa para compreender e apoiar crianças autistas, especialmente em relação às estereotipias (também conhecidas como “stimming” ou comportamentos autoestimulatórios).
O ponto fundamental é que a ISA não visa “eliminar” as estereotipias, pois entende que elas são uma forma de comunicação e uma estratégia de autorregulação. Em vez disso, o objetivo é abordar a causa sensorial subjacente, ajudando a criança a regular seu sistema nervoso de maneira mais eficiente e funcional.
Principais benefícios da Integração Sensorial de Ayres em relação às estereotipias:
1. Compreensão da Função da Estereotipia
Primeiro, a ISA ajuda a identificar a causa que está por trás do comportamento. Uma estereotipia não é aleatória; ela tem uma função. A maior parte das evidências indica que muitas estereotipias funcionam como uma estratégia de autorregulação sensorial.
As causas sensoriais mais comuns são:
- Hiperreatividade (Defensividade Sensorial): A criança está sobrecarregada por estímulos (luzes, sons, toques). A estereotipia (ex: balançar o corpo, tapar os ouvidos) pode ser uma tentativa de bloquear o excesso de informação sensorial e criar um ritmo previsível e calmante.
- Hiporeatividade (Baixo Registro): A criança não está recebendo estímulos sensoriais suficientes para sentir seu corpo no espaço. A estereotipia (ex: bater com força, pular, girar) é uma forma de gerar uma entrada sensorial intensa para que o cérebro “acorde” e se sinta organizado.
- Busca Sensorial: A criança tem uma necessidade neurológica de buscar sensações intensas e específicas (principalmente vestibulares e proprioceptivas). Girar, correr em círculos e pular são formas de alimentar essa necessidade.
- Busca de previsibilidade: A criança executa movimentos que geram controle e estabilidade.
2. Melhora da Autorregulação e Modulação Sensorial
Este é o benefício central. A terapia de ISA oferece à criança experiências sensoriais controladas e terapêuticas (balançar em equipamentos suspensos, pular em trampolins, rolar em almofadas, usar coletes ponderados).
- Ao fornecer o tipo e a intensidade de estímulo que o sistema nervoso da criança precisa em um ambiente seguro, o terapeuta ajuda a “calibrar” o cérebro. Isso diminui a necessidade da criança de buscar esses estímulos de forma desorganizada através de estereotipias. Uma criança mais regulada sente menos necessidade de recorrer a comportamentos autoestimulatórios para se acalmar ou se alertar.
3. Aumento da Consciência Corporal (Propriocepção)
Muitas estereotipias, como balançar o corpo para frente e para trás, girar em torno do próprio eixo, estão ligadas a uma dificuldade em sentir e localizar o corpo no espaço. A terapia de ISA é rica em atividades proprioceptivas (pressão nas articulações e músculos) e vestibulares (movimento e equilíbrio).
- Atividades como escalar, empurrar caixas pesadas e ser “esmagado” por almofadas ajudam a criança a desenvolver um mapa corporal mais claro. Com uma melhor consciência corporal, a necessidade de gerar estímulos intensos para “se sentir” pode diminuir.
4. Fornecimento de Alternativas Funcionais e Socialmente Aceitas
A ISA não extingue a estereotipia, não atua por treino repetitivo ou controle externo e não a trata isoladamente, mas atua na raiz funcional do comportamento, ou seja, na autorregulação do sistema nervoso, compreendendo sua função e oferecendo um “cardápio” maior de estratégias regulatórias.
- Exemplo: Uma criança que balança as mãos (“flapping”) buscando estímulo proprioceptivo pode ser ensinada a executar uma atividade funcional, que proporcione a mesma sensação, como carregar objetos pesados (como livros ou uma cesta de compras de brinquedo) ou puxar um objeto pesado amarrado a uma corda. Essas atividades fornecem a mesma entrada sensorial de pressão profunda, mas de uma forma mais direcionada e que pode ser integrada em tarefas do dia a dia.
Segundo A. Jean Ayres, o cérebro precisa organizar e integrar adequadamente as informações sensoriais (principalmente vestibular, proprioceptiva e tátil) para produzir respostas adaptativas. Quando essa integração é ineficiente, a criança (ou adulto) pode recorrer às estereotipias como estratégia compensatória.
Durante a terapia ISA, o terapeuta:
- oferece estímulos sensoriais dosados, significativos e funcionais
- promove respostas adaptativas (ações com propósito)
A estereotipia deixa de ser a única forma de regulação disponível.
5. Redução da Ansiedade e do Estresse
Um sistema nervoso desregulado está em constante estado de alerta ou letargia, o que gera ansiedade e estresse. As estereotipias são frequentemente uma resposta a esse desconforto.
- Ao organizar o processamento sensorial, a ISA ajuda a criança a se sentir mais segura e calma em seu próprio corpo e no ambiente. Uma criança menos ansiosa e com melhores ferramentas para lidar com a sobrecarga sensorial recorrerá com menos frequência a estereotipias motivadas por estresse.
6. Melhora do Engajamento e da Participação
Quando a criança gasta menos tempo e energia tentando regular seu corpo através de estereotipias constantes, ela fica mais “disponível” para aprender, brincar e interagir.
- Um sistema nervoso organizado é a base para o desenvolvimento de habilidades mais complexas, como atenção, coordenação motora, planejamento de tarefas e interação social. Ao reduzir a “necessidade” da estereotipia, a criança pode se engajar de forma mais significativa em outras atividades.
Estereotipias não são causadas exclusivamente por disfunções sensoriais
As estereotipias motoras e sensoriais não surgem apenas porque há uma disfunção sensorial. Elas fazem parte do perfil neurobiológico do autismo, envolvendo diferenças na organização cerebral, funcionamento da atenção, autorregulação emocional, função executiva e processamento sensorial. Mas o sensorial influencia fortemente as estereotipias.
A relação entre estereotipias e sensorialidade é bidirecional
Além de o sensorial influenciar as estereotipias, o oposto também ocorre: a estereotipia altera a entrada sensorial, pode reduzir ansiedade e estresse, pode aumentar foco e organização interna e pode, em alguns contextos, interferir na interação social ou na aprendizagem
Atualmente a ciência entende que os modelos contemporâneos (neurodesenvolvimentais e ocupacionais) consideram que: estereotipias são comportamentos com função, muitas têm função sensorial-regulatória, outras têm função emocional, cognitiva ou comunicativa.
Eliminar estereotipias sem compreender sua função pode aumentar sofrimento.
Intervir é necessário quando existe risco e prejuízo funcional.
Em resumo
É crucial entender que a Integração Sensorial de Ayres adota uma visão neuroafirmativa. O objetivo nunca é fazer a criança inibir ou reprimir o comportamento estereotipado, mas sim dar-lhe as ferramentas para que ela se sinta mais confortável, segura e capaz de navegar em um mundo que, muitas vezes, é sensorialmente avassalador.
A terapia ISA ajuda a garantir que as estereotipias não sejam a única ferramenta da criança para lidar com o mundo, expandindo seu repertório de ações e permitindo que ela participe plenamente da vida, com bem-estar, autonomia e independência.
POLÍTICA EDITORIAL: O site Seven Senses acredita que a educação é a chave para o sucesso no atendimento a pessoas com autismo, síndrome de down e distúrbios relacionados. Trabalhamos para garantir que a seleção de recursos e conteúdos sobre autismo e síndrome de down, aqui publicados, contribuam para a conscientização e apoio a famílias e profissionais que se dedicam ao autismo e à síndrome de down.
Observação: As informações contidas neste site não devem ser usadas como substitutivo de cuidados e aconselhamentos médicos.
Publicado por: Maria Aparecida Griza (CIDA GRIZA)

Certificação Internacional em Integração Sensorial – University of Southern California / USC – USA
Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise / PUCPR | Especialista em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa – Gerontologia / UFSC | E- specialista em Rede de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência / UNESC | Terapeuta Ocupacional da Seven Senses – Espaço Pediátrico de Integração Sensorial – Florianópolis/SC
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