RIGIDEZ COGNITIVA EM AUTISMO

Rigidez cognitiva, também conhecida como “pensamento inflexível”, é a dificuldade em adaptar o pensamento ou o comportamento diante de novas situações e informações novas, mudanças de opinião ou alternância entre tarefas ou atividades. É como se a mente tivesse um conjunto fixo de regras ou rotas preferidas e achasse difícil ou angustiante desviar-se delas.

Em outras palavras, é a tendência de manter rotinas, preferências e formas de fixas de agir.

A rigidez cognitiva é um dos aspectos que mais impactam a vida de pessoas autistas e de suas famílias. Para muitas crianças autistas, essas mudanças significam um desafio angustiante e as fazem reagir de forma exagerada ou até mesmo agressiva. Essa reação é, na verdade, decorrente da tentativa de atrasar ou evitar as mudanças que para elas são completamente novas ou diferentes. Portanto, longe de ser uma falha de caráter, é uma característica neurobiológica que influencia a forma como o mundo é percebido.

Em crianças autistas, isso pode se manifestar de diferentes formas, como:

  • Resistência a mudanças na rotina (mesmo pequenas, como alterar o caminho para a escola).
  • Dificuldade em lidar com imprevistos ou alterações de última hora. Uma alteração repentina de planos, como um compromisso cancelado, pode ser extremamente perturbadora.
  • Pensamento “preto e branco”: A tendência a ver as coisas como certas ou erradas, boas ou más, sem considerar nuances ou pontos de vista alternativos.
  • Problemas com a transição: Mudar de uma atividade para outra pode ser muto desafiante, especialmente se a atividade anterior for de sua preferência ou muito agradável.
  • Preferência pelos mesmos temas. Repetir os mesmos temas de conversa ou brincadeiras.

Por Que Isso Acontece no Autismo?

Essa característica não é “birra” ou “teimosia”. Nem é uma escolha; ela está ligada a diferenças no funcionamento cerebral, incluindo áreas responsáveis pelo pensamento executivo e pela capacidade de mudar o foco e a atenção.

Pesquisas mostram que o cérebro autista processa informações de maneira diferente, com maior sensibilidade a estímulos e menor tolerância à imprevisibilidade. A rigidez cognitiva é uma forma do cérebro buscar segurança e previsibilidade, uma estratégia para reduzir a ansiedade e o estresse — manter rotinas e padrões ajuda a sentir que o ambiente está sob controle.

Dicas para Reduzir a Rigidez e Promover a Flexibilidade

Embora a rigidez cognitiva faça parte do perfil autista, é possível trabalhar a flexibilidade de forma gradual e respeitosa, lembrando que desenvolver a flexibilidade não significa eliminar as rotinas ou os interesses específicos que trazem conforto e segurança, mas introduzir estratégias que permitam uma adaptação mais suave às necessidades do dia a dia.

Aqui estão algumas dicas práticas que podem ajudar:

1. Introduza mudanças de forma gradual e previsível

A previsibilidade é uma aliada poderosa. Em vez de impor uma mudança repentina, anuncie-a com antecedência. Use calendários visuais, agendas ou histórias sociais para descrever o que vai acontecer. Por exemplo, “Na próxima semana, a aula de natação será em um horário diferente.”

2. Pratique mudanças em pequenas doses

Comece com mudanças sutis: trocar o copo da refeição, mudar de lugar na mesa ou alterar uma pequena parte da rotina. Valorize e elogie comportamentos flexíveis com recompensas ou elogios. Isso motiva a repetir o comportamento.

3. Crie planos “B”

Pratique a ideia de que existem alternativas. Ofereça alternativas. Dar duas ou três opções simples ajuda a pessoa autista a se sentir no controle, reduzindo a ansiedade.

Por exemplo, se a criança adora brincar no parquinho, converse sobre a possibilidade de, em caso de chuva, brincarem em um espaço interno. Ter um plano alternativo previamente validado pode reduzir a ansiedade de uma mudança inesperada.

4. Use a linguagem da flexibilidade

Incorpore ao seu vocabulário frases como “Vamos tentar de um jeito diferente,” “O que mais poderíamos fazer?” ou “Às vezes, as coisas mudam“. Isso ajuda a normalizar a ideia de que a vida é cheia de imprevistos. Use exemplos do seu próprio dia a dia para mostrar como você se adapta.

5. Promova jogos criativos e de faz de conta

O jogo é uma das melhores ferramentas para desenvolver a flexibilidade. O faz de conta exige que a pessoa se coloque em diferentes papéis, explore novas regras e lide com situações imaginárias. Brincar com blocos de construção de forma livre, criar histórias ou desenhar sem um objetivo final específico pode incentivar o pensamento divergente.

6. Use Histórias Sociais

Histórias curtas com ilustrações que explicam situações semelhantes ajudam a preparar para eventos diferentes, como visitas, viagens ou consultas médicas.

7. Valide os sentimentos

Quando uma mudança causa angústia, é crucial validar a emoção. Dizer “Eu entendo que é frustrante quando os planos mudam” mostra empatia e constrói confiança. Isso permite que a criança processe a emoção e esteja mais aberta a encontrar uma solução.

8. Use o método Socrático

Em vez de dar respostas diretas, faça perguntas. Se a pessoa insiste que um evento precisa acontecer de uma forma específica, pergunte: “O que aconteceria se fizéssemos de outra maneira?” ou “Existe outra forma de conseguirmos o mesmo resultado?”. Isso incentiva a criança a explorar as próprias soluções e a pensar de forma crítica e criativa.

9. Ensine estratégias de regulação emocional

Respiração profunda, objetos sensoriais, músicas calmas ou um espaço seguro em casa podem ajudar a reduzir a tensão quando algo foge do esperado.

10. Seja modelo de flexibilidade

Mostre como você lida com mudanças de forma tranquila, dizendo, por exemplo,  em voz alta: “Eu queria tomar café, mas acabou o leite. Então vou tomar chá. E está tudo bem!”

A rigidez é parte da forma como muitas crianças autistas vivenciam o mundo, mas pode ser trabalhada de forma respeitosa e gradual. Com paciência, acolhimento, estratégias consistentes e apoio profissional especializado, elas podem ampliar sua tolerância a mudanças e se sentirem mais seguras para enfrentar mudanças inevitáveis da vida.

Qual dessas estratégias você achou mais útil? Compartilhe suas experiências e dicas nos comentários!


POLÍTICA EDITORIALO site Seven Senses acredita que a educação é a chave para o sucesso no atendimento a pessoas com autismo, síndrome de down e distúrbios relacionados. Trabalhamos para garantir que a seleção de recursos e conteúdos sobre autismo e síndrome de down, aqui publicados, contribuam para a conscientização e apoio a famílias e profissionais que se dedicam ao autismo e à síndrome de down.

Observação: As informações contidas neste site não devem ser usadas como substitutivo de cuidados e aconselhamentos médicos.


Publicado por: Maria Aparecida Griza (CIDA GRIZA)

Certificação Internacional em Integração Sensorial – University of Southern California / USC – USA

Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise / PUCPR    |     Especialista em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa – Gerontologia / UFSC    |    E- specialista em Rede de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência / UNESC    |        Terapeuta Ocupacional da Seven Senses – Espaço Pediátrico de Integração Sensorial – Florianópolis/SC


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